terça-feira, 15 de abril de 2014

CoMANDOs

   Se a simplicidade me comandasse eu ia até ao fim e não ficava à espera dos nãos. 
   Se a simplicidade fosse um sorriso tu eras simples.
   Se a simplicidade andasse de mãos dadas com a lua, ela era o meu baloiço, embalava sem sobressaltos. 
   Se tu, simplicidade, fosses mais fácil, ou se eu fosse tu, simplicidade, era leve e destemida.
   Se eu te conhecesse simplicidade eras minha amiga, eras aquela amiga que nunca escolhi.

   E por falar de escolhas, simplicidade, tu tens contigo cidade que eu comigo não tenho. Tu tens essa cidade que nunca largas, eu tenho-te a ti, longe daqui agora, mas perto sempre em pensamento. 
   Se tivesses cor simplicidade eras desta cor que te escrevo e descrevo. Se algum dia eu te tocar, simplicidade, deixa-me viajar contigo.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Empoleirar

    Dizia ele que se nos empoleirarmos num galho onde já pousámos as coisas não vão ser as mesmas. Não vão mesmo, os poisos já foram outros, os voos já levaram e trouxeram viveres. A experiência, esse polissílabo que começa a fazer tanto sentido, aparece ao fim de umas chuvas.
    O galho é bonito e sereno, nos galhos vizinhos há colos verdadeiros, cantam os pássaros todas as manhãs e o rio ainda não secou, mas e...mas e a vida? Parece que para, parece que parou quando olho lá para baixo, os que pousavam no mesmo galho já não andam por ali, voam agora noutros campos. Tive de voltar a pousar, raízes não prendem almas disso já percebi, falta agora ter a certeza que não prendem corpos e depois as asas começarão a ser mais leves.
   Fará sentido sentir que valeu a pena mais uma mudança, poder conseguir transformar saudade em vida vivida, poder criar um livro de vidas, sem escrever palavras, desenhando apenas pegadas coloridas com fundos bem diferentes em cada página. 
   Voltar ao galho as vezes que forem necessárias para poder partir livre para as páginas brancas. Levo-te sempre e nunca hei de achar-te desusado

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

       Eram bolas soltas, coloridas, que se moldavam com cada passagem, com cada calcamento, cada pisada, sem os ser. 
       As bolas já não eram bolas e já não estavam separadas como qualquer coisa que se baralhava e confundia consigo própria. As bolas já eram bocados de cor definidos, com um espaço seu, arrumadas sem grande organização perfeita.
      Cada bola era uma coisa que queria ser, com o calor humano, com as experiência das mãos elas ganhavam a forma que mais queriam nos momentos que mais queriam.
    Com cada uma se não via outra, elas eram fortes, com personalidades únicas, eram interessantes, cativantes, eram aquilo que queriam ser.
      Saíram da caixa, conseguiram saltar dali, mas...
         Nem sempre é tão bom assim sair da caixa, ou antes, nem sempre é bom não poder escolher a caixa e escolher poder voltar. O bom só se pode ver quando não se vê só o mau e quando se sabe não ver o mau. Nessa altura, pode-se colocar cada cor em cada espaço, pode-se baralhar, envolver mas cada bola solta nunca perde a essência.
          Chama-se vida!


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

IN-DES-A- palavras

    Desdizer, desfraldar, defraudar, des e des, são tantos que tem dias que o nosso corpo é uma mola mas com a imensidão deles, que parece que acompanham as modernas tempestades, conseguem penetrar a pele em outros tantos dias.
   As despalavras (são assim chamadas agora por ela) ou as desinterpretações, talvez, caem sem fundo que ampare e deixam rasto. Ainda nem toda a gente consegue criar a barreira que as afasta, as despalavras, a menina não conseguiu ainda. 
   Será que senhoras todas a têm? Dentro da mala, na bolsa do batom ou junto aos ben-u-rons?
   Talvez uma aula de palavras bonitas ajudasse aos que não pegam nelas e nem as espalham sem pensar e ver a direção. Também a desinterpretação das palavras merecia uma aula, as duas cabiam bem nas aulas da maturidade senhoril, nas aulas de "Educação para a sabedoria".
   Sugeria de bom grado este tema ao senhor ministro, que de senhor tem tão pouco.


Cuidado, palavras fazem doer!


domingo, 12 de janeiro de 2014

   Que venha, trazer o Mar de Lisboa, que venha puxar os sorrisos, preencher as bolsinhas de alimento, as almas de sopros cheios.
  Os líquidos confinados a lugares só seus, desenham noites secretas que entregam as chaves às memórias dos que os envolvem em suas vidas.
   As vozes que se fazem ouvir sem nunca pedir ecoam palavras pelo meio de assuntos soltos.
  Aqueles miúdos lá vão, vindos de tantos sítios, com suas semanas, em noites. Nessas noites o frio grita lá fora, o quente humano grita mais longe e as janelas separam conversas. Na rua fica o frio, lá nela o calor humano. 
   As idades envolvem-se em balburdias e tal como o azeite e a água, cada uma se mantém na sua, apenas porque a experiência, tal como a identidade é diferente.
   A ideia do "Mar", a ideia dos troncos de árvore tratados para ser ela, a ideia do chapéu a chegar à luz foi só sua. Do Senhor que fala aquela língua tão própria. Há línguas assim, nem todos lá chegam, nem todos a entendem, poucos, mas tão bons. É a língua ideal, a língua dos sítios puros.
   Lá já faltam gentes, mas as gentes sentem-se e presenciam-se ainda que sem peso e visão.
   Nunca se esquece o que sempre aparece.
   


     

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Rumos

    Quando os locais nos prendem, os cheiros nos agarram e as casas nos sorriem, às vezes esquecemo-nos do que nos fazem as pessoas. As pessoas que são mais frágeis e são mais fortes, são as responsáveis por tudo, por tudo o que se alcança com os sentidos, mas carregam tanto que nem se são conta.

    Nem se são conta do tempo, do que passa e do que não passa, nem se dão conta do que comem e não comem, do que abraçam e não abraçam, mas depois, em dias que não esperam, de mansinho aparecem vendavais que as abanam, que as fazem voar e procurar outros rumos, despem-nas de preconceitos, de palavras, de sentidos e deixam-nas livres.       Quem já foi despido sabe o que é, outros nem tanto, como aqueles a quem o vendaval chegou para fazer lembrar que o valor das pessoas é incalculável, que a vida é pequenina, frágil, redondinha e brilhante. Que, nem todas, mas que algumas, poucas, fazem parte de nós e não da vida, estão em nós, estão no nosso carro, estão nos caminhos, nas bebidas, nas roupas, nas palavras, nas decisões, nas figuras, nos pensamentos e no coração. Essa caixinha...
    Tu moras na minha caixinha, eu às vezes não a abro, porque sou pessoa, preciso ser despida, mas despida por um vendaval bonito e de coragem. Há ventos que assobiam, que nos embalam e sossegam de noite e outros que nos acordam. Tu trouxeste dos dois, há lugares que agora são meus mas que foram e serão teus, há pessoas que agora são minhas, foram e serão tuas, há agora filosofias e pensamentos que partilhámos que agora são nossos.
     Tu foste dos homens que me mostrou que existe sensibilidade e coragem, se hoje sei o que são desafios agradeço-te. É urgente sabermos que tudo tem de ser vivido intensamente, é urgente aprender que nunca nos podemos esquecer de agarrar a vida, perder o medo de dizer que gostamos ou de elogiar aquelas que sentimos que merecem, porque um dia os pássaros voam, precisam de fortalecer as asas e procurar alimento mais doce, soltam-se dos ninhos e pousam noutro lugar.
     Se eu pudesse o meu passarinho tinha um cordão invisível, era essencial já que isso sim é o invisível, quando eu pudesse puxava e ele sem magoar o seu pescoço traria-o de volta, só para lhe dar uma festinha terna, adormecê-lo no meu ombro, dar-lhe o meu calor e uma palavrinha de coragem.
     Mas sabes, eu atei-te esse cordãozinho, tu nunca o vais ver, mas quando precisares de o puxar vais encontrá-lo mesmo à mão, nessa altura e ao mesmo tempo eu vou puxá-lo do outro lado e se o contrário acontecer tu também vais puxar no sentido contrário ao meu.


É desses cordões que vivem as amizades que nunca morrem, TU, até hoje só tu e o meu Pipocas me fizeram realmente perceber o que é ter uma companhia que queremos nunca perder e que sentimos um aperto quando não está.

Vou puxar sempre o teu cordão, meu querido passarinho...



    

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A ti, CiDaDe

     Entraste e não pediste licença, era menina, era menina de encostar a mão pequena na que me conduzia pelas tuas ruas compridas, agitadas, cheias de gentes diferentes, cheias de lojas e com cheiros nunca iguais. A minha aldeia ficava no sítio dela e eu nunca a esqueço, é o ninho do meu corpo e da minha alma. 
     A vida foi passando, nunca deixei de te visitar, no outono o cheiro das castanhas por entre a chuva, no Natal as luzes enchem-te de cor e magia, no verão os turistas que por ti deambulam enchem as esplanadas das tuas mirabolantes colinas. O rio que orienta desconhecidos, que te ampara e sossega da agitação ao cair da noite.
     Na altura das primeiras cervejas, da capa preta em ombros, das viagens de horas diárias passaste a ser a minha professora, ensinaste.me tanto sobre tudo. Fiz uma pausa e experimentei outra da tua família, mas não, não me apaixonei por ela como por ti. Amor só há um e não é verdade, mas que o resto é paisagem é indiscutível. 
    Depois dos fins de semana que por aí andei, das noites que por aí sonhei ficaste a fazer parte dos dias e eu passei também a ser tua professora. Trocávamos diariamente ensinamentos e aprendizagens saudáveis. Conheci-te melhor, de fio a pavio duvido que alguém o consiga. És grande e uma grande cidade, dentro de ti mora a luz, mora o fado, moram os bairros mais bonitos que hei de visitar, dentro de ti moram as praças históricas, moram empresas e empresários, dentro de ti mora os estendais e os vasos nas janelas, dentro de ti moram os candeeiros que me arrepiam. 
     Agora migrei para o mar, que tanto me aquece, ficas perto na mesma, ficas sempre no teu lugar. De cada vez que te visito te REdescubro, tens uma rua minha, essa não me tiram, tens uma casa minha, tens a minha saudade, querida cidade.