Quando os locais nos prendem, os cheiros nos agarram e as casas nos sorriem, às vezes esquecemo-nos do que nos fazem as pessoas. As pessoas que são mais frágeis e são mais fortes, são as responsáveis por tudo, por tudo o que se alcança com os sentidos, mas carregam tanto que nem se são conta.
Nem se são conta do tempo, do que passa e do que não passa, nem se dão conta do que comem e não comem, do que abraçam e não abraçam, mas depois, em dias que não esperam, de mansinho aparecem vendavais que as abanam, que as fazem voar e procurar outros rumos, despem-nas de preconceitos, de palavras, de sentidos e deixam-nas livres. Quem já foi despido sabe o que é, outros nem tanto, como aqueles a quem o vendaval chegou para fazer lembrar que o valor das pessoas é incalculável, que a vida é pequenina, frágil, redondinha e brilhante. Que, nem todas, mas que algumas, poucas, fazem parte de nós e não da vida, estão em nós, estão no nosso carro, estão nos caminhos, nas bebidas, nas roupas, nas palavras, nas decisões, nas figuras, nos pensamentos e no coração. Essa caixinha...
Tu moras na minha caixinha, eu às vezes não a abro, porque sou pessoa, preciso ser despida, mas despida por um vendaval bonito e de coragem. Há ventos que assobiam, que nos embalam e sossegam de noite e outros que nos acordam. Tu trouxeste dos dois, há lugares que agora são meus mas que foram e serão teus, há pessoas que agora são minhas, foram e serão tuas, há agora filosofias e pensamentos que partilhámos que agora são nossos.
Tu foste dos homens que me mostrou que existe sensibilidade e coragem, se hoje sei o que são desafios agradeço-te. É urgente sabermos que tudo tem de ser vivido intensamente, é urgente aprender que nunca nos podemos esquecer de agarrar a vida, perder o medo de dizer que gostamos ou de elogiar aquelas que sentimos que merecem, porque um dia os pássaros voam, precisam de fortalecer as asas e procurar alimento mais doce, soltam-se dos ninhos e pousam noutro lugar.
Se eu pudesse o meu passarinho tinha um cordão invisível, era essencial já que isso sim é o invisível, quando eu pudesse puxava e ele sem magoar o seu pescoço traria-o de volta, só para lhe dar uma festinha terna, adormecê-lo no meu ombro, dar-lhe o meu calor e uma palavrinha de coragem.
Mas sabes, eu atei-te esse cordãozinho, tu nunca o vais ver, mas quando precisares de o puxar vais encontrá-lo mesmo à mão, nessa altura e ao mesmo tempo eu vou puxá-lo do outro lado e se o contrário acontecer tu também vais puxar no sentido contrário ao meu.
É desses cordões que vivem as amizades que nunca morrem, TU, até hoje só tu e o meu Pipocas me fizeram realmente perceber o que é ter uma companhia que queremos nunca perder e que sentimos um aperto quando não está.
Vou puxar sempre o teu cordão, meu querido passarinho...

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