quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Permite-te

   Permite o olhar, o vagar, permite-te sentir e viajar. Permite-te procurar, permite-te encontrar, permite os olhares, permite os elogios e as boas palavras, permite as frases doces, permite a sabedoria da experiência e a alegria da idade.
   Permite-te crescer, bagunçar, mudar, permite-te o silêncio.
   A menina já não mora aí, deixaste-a adormecer. Acorda-a para rir, para chorar, acorda-a apenas quando tu estiveres acordada.
   Não peças permissão aos outros...
   Permite-te sentir, permite-te.

terça-feira, 21 de julho de 2015

ALdeia

     Ainda me crias dúvidas e suscitas lembranças eternas. Chego a ti e respiro sempre fundo, tão fundo que a ventoinha do meu cérebro imediatamente o refresca e faz chegar memórias. Tenho em ti todas as memórias da minha infância, foste rainha de mim e daquelas miúdas pequenotas e cheias de sonhos que me acompanharam.
    Hoje, sem engano, hoje passei no teu largo e só se ouvia vento, calmo, folhas que deambulavam rente ao chão como penas, não há rasto de outros tempos. O "ZéJaquim" está fechado e já sem gelados frescos para estas noites, a "Tininha" tem a porta pronta para abrir só amanhã, os "Velhotes"dos bancos já faleceram e a "Senhora dos tanques" nem se ouvia. 
     Fizeste-me lembrar dos cigarros às escondidas, atrás, ou à frente da igreja, porque o nosso atrás, era a frente dela, virada mesmo para a estrada que me faz chegar a ti, agora só às sextas, ou nas férias, ou até quando o rei faz e não faz anos.
    Fizeste-me lembrar as miúdas, as risadas, as piadas, as alegrias e os sonhos, os delas e os meus, fizeste-me lembrar que a distância dói quando a saudade aperta, fizeste-me lembrar que amanhã, mesmo que deseje muito vais estar de novo despida de gente, à noite, com tanta pena que tenho.
     Fizeste-me lembrar de ti mais velhota, de um "Coreto" eterno para onde trepava com a força que me deste. Fizeste-me lembrar que te apresento sempre com um sorriso, com o coração meio cheio e meio vazio, cheio de coisas passadas e tão vazio das presentes. Sobrevives dentro de mim pelo que já foste, quando as miúdas cá andavam aos molhos.
    Quero dizer-te que o teu rio ainda me encanta, que sem olhos ou até sem água ainda me faz companhia, que me deste alento para decisões e novas partidas, que me abraçaste na chegada e que ainda me iluminas os pensamentos.
      És a filha da minha cidade ou a mãe, enquanto sou só filha podes ser tu a mãe, depois trocamos de papel. Pode ser?

GOsTA-te sempre muito!

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Cuidar

   Só tudo regado cresce e se torna forte. Só o carinho e o afeto alimentam as plantas cultivadas.
   Não dês à nova planta uma água de outra, suja e contaminada de viroses que a vão fazer ficar fraca, não lhe dês alimentos envenenados. Cuida dela com paixão, se vires que lhe deram algumas dessas coisas rega-a com coisas boas. Dá-lhe mimos e atenção e se ainda assim ela parecer não dar flor...continua. Não desistas nunca dessa plantinha.
   Com uma água limpa e tempo ela filtra o que não era bom e renasce.
   Se desistes ela morre, as raízes apodrecem e ela nunca mais se torna forte.
   Deixa-a filtrar o que não presta e vais ver que um dia colhes dela as flores mais bonitas e os frutos mais saborosos que já experimentaste.


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Since

    Tu não pedes nem programas, tu não dizes sem sentir e não sentes sem dizer. Tu tens um jeito de ser diferente do diferente, tu chegas-me de jeitos que ninguém parece conseguir, a voz ecoa serena, embala-me com ternura e me aquece com paixão.
    Deixas-te, deixas-me e deixas-nos surpreender pela felicidade de sorrir sem querer até e sem nos darmos conta. 
    Completas-me simplesmente, o simples é tão fàcil de interpretar e compreender, diria que os meus mais pequenos aprendizes saberiam decifrar e terminar as palavras complicadas dos adultos. 
  

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Falta

   Nem sabia de títulos, sobre títulos, porque nem há nomes que se encaixem em sentimentos prolongados que derretem as vontades, estragam os sonhos e evitam motivações, bloqueam as palavras, deixam de nos deixar ouvir os conselhos, coisa que, diga-se a verdade, já nem aquece e muito menos arrefece.
  Otimismo, esperança, força, paciência, preserverança, coragem, luta, proatividade, simpatia, aceitação...são palavras suficientes para encher o coração e todas as bolsas que podem explodir. Falta de paciência e até falta de Sol, interior e exterior.
   Notícias ao minuto sobre a emigração e a procura de condições de vida, não de melhores, mas de condições. Famílias que se desintegram, amigos separados, relações cortadas, mas uma vida nova, a verdade é que a vida nova pode trazer o que aqui nem existe.
 Falta de respeito é quase a passWORD para entrar em Portugal, falta de respostas a currículos, não respostas após entrevistas, um desligar completo pelo outro.
   Indignação, vontade de mandar tudo ao ar. Faltou já muito mais, mas que pena, um país tão cheio de beleza, boa comida, bom tempo, boas águas. 
   Boa sorte para os que já foram e muita mais sorte para os que ainda cá estão, que ainda nadam por aqui sem saber bem para que ponto cardeal.


  

  

terça-feira, 15 de abril de 2014

CoMANDOs

   Se a simplicidade me comandasse eu ia até ao fim e não ficava à espera dos nãos. 
   Se a simplicidade fosse um sorriso tu eras simples.
   Se a simplicidade andasse de mãos dadas com a lua, ela era o meu baloiço, embalava sem sobressaltos. 
   Se tu, simplicidade, fosses mais fácil, ou se eu fosse tu, simplicidade, era leve e destemida.
   Se eu te conhecesse simplicidade eras minha amiga, eras aquela amiga que nunca escolhi.

   E por falar de escolhas, simplicidade, tu tens contigo cidade que eu comigo não tenho. Tu tens essa cidade que nunca largas, eu tenho-te a ti, longe daqui agora, mas perto sempre em pensamento. 
   Se tivesses cor simplicidade eras desta cor que te escrevo e descrevo. Se algum dia eu te tocar, simplicidade, deixa-me viajar contigo.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Empoleirar

    Dizia ele que se nos empoleirarmos num galho onde já pousámos as coisas não vão ser as mesmas. Não vão mesmo, os poisos já foram outros, os voos já levaram e trouxeram viveres. A experiência, esse polissílabo que começa a fazer tanto sentido, aparece ao fim de umas chuvas.
    O galho é bonito e sereno, nos galhos vizinhos há colos verdadeiros, cantam os pássaros todas as manhãs e o rio ainda não secou, mas e...mas e a vida? Parece que para, parece que parou quando olho lá para baixo, os que pousavam no mesmo galho já não andam por ali, voam agora noutros campos. Tive de voltar a pousar, raízes não prendem almas disso já percebi, falta agora ter a certeza que não prendem corpos e depois as asas começarão a ser mais leves.
   Fará sentido sentir que valeu a pena mais uma mudança, poder conseguir transformar saudade em vida vivida, poder criar um livro de vidas, sem escrever palavras, desenhando apenas pegadas coloridas com fundos bem diferentes em cada página. 
   Voltar ao galho as vezes que forem necessárias para poder partir livre para as páginas brancas. Levo-te sempre e nunca hei de achar-te desusado