Entraste e não pediste licença, era menina, era menina de encostar a mão pequena na que me conduzia pelas tuas ruas compridas, agitadas, cheias de gentes diferentes, cheias de lojas e com cheiros nunca iguais. A minha aldeia ficava no sítio dela e eu nunca a esqueço, é o ninho do meu corpo e da minha alma.
A vida foi passando, nunca deixei de te visitar, no outono o cheiro das castanhas por entre a chuva, no Natal as luzes enchem-te de cor e magia, no verão os turistas que por ti deambulam enchem as esplanadas das tuas mirabolantes colinas. O rio que orienta desconhecidos, que te ampara e sossega da agitação ao cair da noite.
Na altura das primeiras cervejas, da capa preta em ombros, das viagens de horas diárias passaste a ser a minha professora, ensinaste.me tanto sobre tudo. Fiz uma pausa e experimentei outra da tua família, mas não, não me apaixonei por ela como por ti. Amor só há um e não é verdade, mas que o resto é paisagem é indiscutível.
Depois dos fins de semana que por aí andei, das noites que por aí sonhei ficaste a fazer parte dos dias e eu passei também a ser tua professora. Trocávamos diariamente ensinamentos e aprendizagens saudáveis. Conheci-te melhor, de fio a pavio duvido que alguém o consiga. És grande e uma grande cidade, dentro de ti mora a luz, mora o fado, moram os bairros mais bonitos que hei de visitar, dentro de ti moram as praças históricas, moram empresas e empresários, dentro de ti mora os estendais e os vasos nas janelas, dentro de ti moram os candeeiros que me arrepiam.
Agora migrei para o mar, que tanto me aquece, ficas perto na mesma, ficas sempre no teu lugar. De cada vez que te visito te REdescubro, tens uma rua minha, essa não me tiram, tens uma casa minha, tens a minha saudade, querida cidade.
