Numa madrugada calorosa, num início de dia, abrem-se portas para o entrar de corpos cheios de expetativas, mentes abertas, corações saltitantes.
Aquela era mais uma aventura, o avião descola e provoca a primeira magia, a cidade bonita fica lá em baixo, com o nascer da luz própria da terra. Algumas, poucas horas e o chão era outro, o cheiros começavam a chegar aos narizes apurados, a sinalização, as cores, as pessoas, a língua, a moeda, os gestos mudam. É hora começar a integrar, a comparar dinheiros, a colher os frutos. Carro novinho e a brilhar, a primeira missão era descobrir o primeiro poiso de descanso, perceber aquela capital, olhar para um monte de linhas que se cruzam, de várias tonalidades e VIAJAR.
Não foi A cidade, aquela não. A imaginação voava mais alto que as nuvens vistas nos minutos anteriores e os KM aumentavam.
Segunda cidade com um pouco mais de interesse e um mar a revelar-se, azul, verde, branco, transparente, apetecível, daqueles dos sonhos, dos contos de fadas, que cintilam e emanam energias.
Terceiro poiso e uma costa deslumbrante, de recortes fortes, baías-marinas, barcos a deambular, dos pequenos, dos rápidos, dos imponentes, transportando pessoas claras, cabeças de um loiro amarelinho, morenas, pessoas apenas. Os olhos enchem-se de brilho e começa a sentir-se o calor das rochas pequenas e pulidas que ligavam as águas azuis à terra verde. Valia a pena não pisar areia, valia a pena parar o carro de cinco em cinco minutos para fazer mais um click no botão que fazia imortalizar o momento. História da antiga, o império era mesmo forte, deixou vestígios por tantos lugares, naquele não foi exceção, lá estava um anfiteatro bem conservado, com aqueles arcos caraterísticos, aquelas colunas elegantes e aquelas cores de paz.
A serenidade da companhia fazia encantar os momentos, as conversas, as garaglhadas e brincadeiras. Há quem saiba não deixar de ser criança mesmo sendo adulto, crescer e manter um pedaço dos quinze anos.
Por falar em quinze anos, aquela idade em que não se pensa muito, em que se faz por que se quer fazer, porque simplesmente apetece e até se esquece existir um mundo à volta, essa mesmo. É essa a idade da pureza delicada e das borboletas que se voltam a sentir com quase o dobro da idade e que só nessa se percebe que nome se podia dar àquilo.
Nas descida, daquela vez para o interior, a uma distância ouvia-se falar brasileiro, discutiam-se assuntos de interesse comum, numa mesma língua, mais cantada apenas, enriquecia-se a mente e o espírito. Ali chovia, estava fresco e ao entrar numa das beldades do mundo UNESCO eis que se abre uma gaveta do coração para guardar tudo o que ali se podia avistar. Cascatas das cores de verdade, rios e riachos a envolventes e envolvidos, peixes e patos felizes que nadavam com a calma que nunca se havia visto antes. Pássaros que faziam esvaziar toda a caixa de pensamentos e ainda os lançavam para um sítio que nunca se descobre. Era um lugar mágico, era tudo o que tinha passado na imaginação, era um lugar de eleição e perfeição, numa palavra apenas, eleiprefeição, se assim se puder inventar.
Ali era permitido voar, ali era permitido respirar um ar doce, um cheiro ameno.
Dois dias naquela dimensão para depois se descer ainda mais até chegar a uma cidade. Com um caminho de conhecimento, ajudou-se a chegar lá, aqueles dois rapazes desprendidos de muita coisa, mas com um skate que lhes pertencia mais que tudo.
Com novas companhias, sons mais familiares se passou um serão de risadas e partilhas, naquela cidade dentro dum palácio de "gestor" do império, agitada, com jovens acompanhados de bebidas, conversas num tom mais alto.
Nova manhã e partida para uma ilha, duas horas num ferry e chegada a um hotel que aparentemente o era assim só, um hotel. Pousando bagagens e respirando o silêncio se apura o ouvido, água, seria uma piscina ali? Parecia mar, mas a lua não iluminava aquele espaço e queria deixar que fosse o sol supreender. Um acordar diferente, ali ficava uma baía privada e a primeira tarefa daquela manhã foi mergulhar, foi um outro lugar, um outro momento inesquecível.
E alugar um barco por conta própria um dia inteiro? Foi a segunda tarefa, algumas Kunas e ali nas nossas mãos, mãos que nunca haviam experenciado um motor marinho, mas que rapidamente se adapataram ao trânsito do Adriático.
Sensações de liberdade, borboletas que nadavam nas barrigas como os peixes naquele fundo. Saltos sem aviso para mergulhar naquele sal infindável, visitas a ilhéus só nossos por instantes, um dia de filme.
Para despedida e que grande despedida, a cidade atacada em MCMXCI, com poucos vestígios de bombas ou tiros, mas antes, atravessar a fronteira da Bósnia Erzegóvina, era obrigatório andar poucos quilómetros em outro país.
O bar construído em rochas, mesmo pertinho do mar foi especial, nostaligia se enraízou, pena de desentrelaçar a minha linha com as linhas fortes, seguras e belas com que a cruzei nesta viagem fantástica.
"Não há homem completo que não tenha viajado muito, que não tenha mudado vinte vezes de vida e de maneira de pensar." Alphonse de Lamartine
Obrigada pela grandiosa companhia criança grande, obrigada por me ajudares a sonhar!